GUERRA CIVIL FEDERALISTA: Ponta Grossa (Paraná) era federalista

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                                                BARONESA DE GUARAÚNA, ADEPTA DOS MARAGATOS

                                                         A  CIDADE  ERA  FEDERALISTA

  •       A Revolução Federalista, como é notório, foi um dos episódios mais deploráveis da história pátria, porque assumiu claros aspectos de guerra civil, provocando matanças e excessos injustificáveis de lado a lado.
  •       Muitos discutem sobre o real posicionamento dos ponta-grossenses durante esse conflito. Querem uns que a cidade tenha sofrido turbulências quando da estada de Gumercindo Saraiva e seu exército, alegando que os maragatos confiscavam cavalos e bois, ameaçavam a população, lançavam e arrecadavam impostos de guerra, fazendo com que as pessoas fugissem para o interior ou se deslocassem para cidades controladas pelas tropas de Floriano. O historiador nativo Manoel Cyrilo Ferreira, em "Miscelânea da História de Ponta Grossa", não consegue disfarçar a ojeriza que sentia pelos gaúchos cabeludos e barbudos, que, no primeiro semestre de 1894, acamparam na terra pitangui, controlando o movimento de trens e desfilando a cavalo, com chapelões, e com as lanças em riste, como se fossem os donos da cidade.
  •       Outros, como Ribas  Silveira, assumem posição diametralmente oposta. Afirmam que os maragatos eram bem vistos pela população, principalmente porque, andando quase maltrapilhos, a ninguém desrespeitavam, demonstrando que lutavam por idéias e não pela simples conquista do poder. Conta, ainda, que o Comendador Augusto Ribas, sensibilizado com a pobreza e com a necessidade dos federalistas, aceitou encabeçar a comissão que, para eles, angariava contribuições em dinheiro, chegando a arrecadar a considerável soma de dez contos de réis. E o professor Antônio Martins de Araújo, cronologicamente considerado o primeiro poeta de Ponta Grossa e também um dos pioneiros do Paraná,  deixou registrado, com palavras  candentes, o entusiasmo que os federalistas inspiravam:
  • Avante, pois, defensores
  • Da República adorada,
  •       Da Pátria a imagem sagrada
  •       Bem alto erguendo de pé.
  •  
  •             Provai ao mundo que o povo
  •             Não é rebanho de escravos,
  •                   Mas, sim, punhado de bravos,
  •                   Das liberdades na fé !
  •              
  •       O poeta Araújo, aliás, em razão de seu franco posicionamento, foi, depois, exonerado do cargo de professor e mantido preso por bom tempo, o que lhe abateu o ânimo, levando-o à doença e à morte. Da mesma forma Carlos Philipowski, pai da escritora Anita, que era engenheiro dos Telégrafos e homem de confiança do Barão do Capanema, viu-se privado do emprego por causa de delações irresponsáveis que o davam como aliado dos maragatos. Nessa mesma lista de perseguidos, não se há de esquecer de Casimiro dos Reis Gomes e Silva, o magistrado negro de Ponta Grossa, que a duras penas saiu da prisão e reconquistou o cargo, acusado também de colaboracionista, não obstante a amizade fraterna que mantinha com o dr. João de Menezes Dória, líder civil dos revoltosos e com o próprio Emygdio Westphalen, Presidente da República Provisória do Desterro, o qual, em telegrama de 2/4/1894, manda-lhe abraços e mensagem de otimismo na Revolução.
  •       Sabe-se, de outro lado, que o castrense Vicente Machado, Vice-Presidente do Estado e um dos chefes da facção pica-pau, assumiu a Presidência porque o titular Francisco Xavier da Silva, outro filho ilustre do Iapó, tirou prolongada (e inexplicável) licença por suposta enfermidade, asilando-se em São Paulo.  Machado, inclusive, depois de abandonar Curitiba ante o avanço dos maragatos, até baixou decreto transferindo a Capital do Estado para Castro, órfão que se sentiu com a decisão de retirada do General Pego, comandante da guarnição militar, que também não quis recepcionar Gumercindo e Custódio de Mello.
  •       Na cidade vizinha, assim, pressupõe-se que a opinião pública e as forças políticas pendiam, em grande parte, para o lado dos florianistas, não obstante posições em contrário, como as de Bonifácio José Baptista, Barão de Monte Carmelo, do Vigário Sezinando, Herculano de Albuquerque e Pedro Carneiro de Mello, dentre outros.
  •       Em Ponta Grossa, porém, malgrado Vicente Machado aí tivesse residido durante muitos anos, exercendo funções de Juiz de Direito, advogado e deputado, existindo, por conseqüência, pessoas que lhe deveriam votar fidelidade, parece que se inaugurou, nessa época, a política de rebeldia em relação ao Governo do Estado.
  •       Augusto Ribas, Tristão Cardoso de Menezes e Joaquim de Paula Xavier haviam sido eleitos deputados à Assembléia Constituinte de 1891, quando houve o verdadeiro golpe de mão, estimulado por Floriano em todo o país, e por Vicente Machado no Paraná, fazendo com que os Presidentes de Província leais a Deodoro (que renunciara) fossem depostos, e, de cambulhada, que se fechassem os Congressos Legislativos renitentes a essa idéia. Ribas, Cardoso e Xavier foram, então, literalmente cassados pelos futuros pica-paus. O primeiro, filho e neto de políticos, rebentada a Revolução, permaneceu em Ponta Grossa, lutando, com serenidade, por suas idéias e chefiando a comissão de empréstimo de guerra, comandada, em Curitiba, pelo desditoso Barão do Serro Azul. O segundo, que era advogado e fazendeiro, foi cuidar de suas herdades. E o último, muito mais médico que político, tomou a viril decisão de voltar à Lapa, sua cidade natal, e ali, ao lado de outros facultativos, passar a atender os feridos do histórico cerco, nada importando as respectivas cores partidárias.
  •       O então Prefeito de Ponta Grossa, Manoel Vicente Bittencourt, eleito para o quatriênio 1892/1896, não tinha inclinação inicial para apoiar os maragatos, porque pertencia aos quadros do Partido Conservador. No andar da carruagem, porém, Maneco Bittencourt parece que se afeiçoou às idéias federalistas, travando contato mais chegado não só com Gumercindo, como também com Manoel Lavrador, Ângelo Dourado e outras cabeças pensantes do movimento, que se encontravam aquarteladas na cidade. Muitos esclarecem que, por essa ousada atitude, e logo depois da derrota dos federalistas, o Prefeito foi gentilmente convidado a renunciar, sendo substituído pelo Cel. Balduíno Taques, inobstante o foguetório que mandou soltar quando os legalistas, vindos de Castro, entraram garbosamente na cidade, há dois dias desocupada pelos federalistas. Coisas do Vicente Machado, afirmam.
  •       De sua vez, a Baronesa de Guaraúna, dona Maria Ambrósia da Rocha Ferreira, viúva de Domingos Ferreira Pinto, um homem cuja marca registrada era a franqueza e que, ao invés de sacrificar leitões para agradar D. Pedro II, achou melhor libertar seus escravos, ganhando, daí, a admiração do velho Imperador, - essa matrona, celebrada também pelo espírito humanitário, não se enfurnou nas fazendas que lhe ficaram como meeira e herdeira. Apoiou abertamente os maragatos, por si e através do cunhado e conselheiro Francisco Antônio Baptista Rosas, ex-intendente municipal, deposto pela Junta Governativa que, três anos antes, abrira caminho para a instalação da oligarquia vicentista no Paraná.
  •       Com a assunção de João de Menezes Dória no cargo de Governador, os ponta-grossenses não temeram qualquer manifestação de apoio. O primeiro telegrama publicado pelo jornal curitibano "A Federação" é de José Miró de Freitas, político e fazendeiro, ligado, pelo casamento, à família Baptista Rosas: " Dr. Menezes Dória - Saúdo-vos, bem como ao Exército Libertador". Em seguida, aparece mensagem do dr. Casimiro dos Reis Gomes e Silva, jurista cuja cultura deixou marcas indeléveis na região: "Dr. Dória - Como restaurador da dignidade, honra e liberdade do Paraná, saúdo-vos; como amigo, um abraço". Virgolino Requião, por igual, felicita o médico humanitário e o político audacioso que, então, atinge o ápice do poder. Logo depois do término da luta na Lapa, no dia 12 de fevereiro de 1894, é o velho Comendador, representante inigualável do clã Ribas, quem se manifesta, sempre em termos comedidos e conciliadores:  "Dr. João Dória - Congratulo-me V. Exa. por mais esta vitória Exército Libertador e salvação famílias lapeanas! (a) Augusto Ribas".
  •       Amando Cunha, morubixaba de outra antiga linhagem, é outro que não contém o entusiasmo: "15/2/1894 - Dr. Dória. Sinceros parabéns este Estado por ter à testa seus altos destinos, um cidadão que, por sua moderação, inteligência e tino, tem captado confiança todos. Providência continue inspirá-lo". Ao lado dessa calorosa mensagem, há outra firmada por um cidadão acima de qualquer suspeita que, fiel sentinela dos bastiões do oeste, possui suas raízes nos Campos Gerais: "Guarapuava, 16 de fevereiro. Exmo. Governador do Paraná - Farei tudo o que me for possível para conseguir a organização do batalhão de voluntários. Às ordens de S. Exa. fica o Visconde de Guarapuava".
  •        Tomado de ardor cívico, outro professor público ponta-grossense, Pedro Saturnino de Oliveira Mascarenhas, manda carta ao Superintendente Geral do Ensino, dr. Claudino Rogoberto Ferreira dos Santos (ex-Promotor Público de Ponta Grossa), pela qual abre mão de um mês de seus vencimentos em favor dos revolucionários feridos, aproveitando a ocasião para qualificar o dr. Dória como patriota destemido e defensor da soberania popular.
  •       As pessoas comuns do povo também não se afastaram dos revolucionários. Pelo contrário, visitavam o abarracamento, faziam festas e bailes, convidando sempre os integrantes do Exército de Libertação Nacional. Ângelo Dourado, inclusive, conta que, certo dia, a população princesina acorreu até ao acampamento, com flores e banda de música, em esfuziante alegria, porque chegara telegrama do Desterro, dando conta que todo o Rio Grande já se encontrava em poder da Revolução. Gumercindo, que falava  sofrível portunhol, pediu, então, ao médico e escritor que, em seu nome, agradecesse à manifestação.
  •       De tudo isso, percebe-se que, entre Vicente Machado e Menezes Dória, ambos saídos da arena político-eleitoral princesina, o último é que contava com maior respaldo popular, levando pessoas importantes da comunidade a se exporem publicamente, malgrado as incertezas e os perigos do momento.
  •       Existia, pois, um clima de simpatia em relação aos homens que tinham vindo do Sul e que,  a despeito das acusações de barbarismo, falavam em liberdade e em submissão à lei, conceitos mágicos que, desde remotos tempos, vinham sendo lábaros invencíveis em todas as guerras travadas contra ditadores e outros espectros.
  •                     

Baronesa de Guaraúna ajudou os maragatos com dinheiro e outros recursos, Paraná, Ponta Grossa, Uma das cidades mais importantes do Estado era federalista

segunda 28 março 2011 01:10



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